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As actividades económicas do concelho de Ponte de Lima assentavam na exploração agro-pecuária e nas actividades pesqueiras, artesanais e mercantis. No primeiro quartel do século XIII, o crescimento económico é já muito significativo. De facto, Santa Maria de Ponte está numa posição muito favorável ao movimento dos homens. As rotas fluviais e as rotas terrestres determinam técnicas, modos de vida, contactos humanos e ritmos económicos. Ao longo do rio Lima, nesse cenário líquido e fascinante de trinta e sete quilómetros navegáveis, os pescadores de Santa Marinha de Arcozelo e de São João da Ribeira, carregam as suas embarcações com salmões, salmonetes, lampreias, trutas, escalos, solhas, sáveis, robalos, tainhas e linguados. Os barqueiros, de ancoradouro em ancoradouro, transportam homens e mulheres, animais e mercadorias. "Barcos compridos, barcos de rio arriba, carregados de sacos, deslizam ao sabor da corrente, com as velas enfunadas. Assim se repete essa faina que vem desde séculos e ainda não perdeu o encanto das formas primitivas. Canções de barqueiros, canção dessas estradas fluviais." (8) Vêm em seguida as principais rotas terrestres: velhas vias romanas vão de Ponte a Braga, Barcelos, Rates, Vila do Conde, Azurara, Labruje, Moreira, Porto. As outras, na margem esquerda do rio, dão acesso a Santa Cruz, Bravães, Oleiros e Barca. Mas a via mais percorrida é, indiscutivelmente, a compostelana: de Ponte a Romarigães, S. Bento da Porta Aberta, Fontoura, Cerdal, Valença, Tuy, Porrino, Redondela, Pontevedra, Caldas de Reys, Padron e S. Tiago. Estas rotas oferecem múltiplas oportunidades: bem junto à ponte, na margem direita do rio, os bufarinheiros armam as suas tendas. A partir daí ocorrem outros feirantes ao encontro de potenciais compradores de água adocicada, vinho, pão, peixe, sapatos vacaris, socos dourados e bragal para camisas. As trocas fazem-se em géneros, mas também encontramos os mercadores com as suas pequenas balanças a pesar as moedas em ouro de outros tempos. Foi assim, muito naturalmente, que os homens inauguraram a feira de Ponte. Nestes espaços, onde a vida borbulha, surgem sempre tensões e conflitos. Pior do que isso é a aproximação de aventureiros e malfeitores. Mas essa gentalha circula por toda a parte. "Como éramos alegres", recorda um desses salteadores, "quando cavalgámos à aventura e podíamos encontrar no campo um rico abade, um rico prior, um mercador ou uma caravana de mulas vindas de Montplellier, de Narbonne, de Limoux...de Béziers, de Toulouse de Carcassone, homens e mulas carregadas de panos de Bruxelas ou de Montvilliers, ou de pelaria vinda da feira de Lendit, ou de especiarias vindas de Bruges ou de panos de seda vindos de Damasco ou de Alexandria. Tudo era nosso e saqueado à nossa vontade. Todos os dias tínhamos dinheiro novo." (9) Bem se vê, tempos depois, no foral da vila, a advertência: "se alguém fizer mal às pessoas que de qualquer parte concorram à feira, tanto na ida como na volta, pague 60 soldos." (10) É que a feira de Ponte já existia, e o tempo vivido reflecte-se "no diploma: este cita-a como instituição em exercício." (11) Chega pois o momento da feira se realizar na margem esquerda por onde passam a circular os homens, os "solidos gallecanos", os trientes, os dinheiros de bulhão e as cargas de barcos, cavalos, burros, almocreves, camponesas, padeiras. Há de tudo, na feira de Ponte: bois, vacas, garranos, carneiros, capões, gansos, coelhos, lebres, cereais, pescadas secas, sal, toucinho, frutas, pão, ovos, alhos, favas, cebolas, ervilhas, feijão, azeite, cera, mel, castanhas, linho, colchas, socos de madeira, sapatos, lenha, palha, esteiras, cangas, selas, coiros, ouro lavrado, vinho, dornas e alfaias agrícolas. O cais de embarque e desembarque de muitos destes produtos evoluiu portanto para um dos mais importantes portos fluviais do reino. Texto extraído da obra "Ponte de Lima na Revolução de 1383", Luís Dantas, Ceres Editora, Ponte de Lima, 1993 NOTAS (8) Oliveira, Carlos Lobo de, Santa Marta de Portuzelo e a sua estampa romântica à beira Lima, Separata de "Roteiro de Viana", Ano XII, 1970, pg.3 (9) Froissart, Chroniques, citado por Lucinda Aranha Antunes, Maria da Luz Garcia, Gil Conde Tavares Cardoso e José Luís Falcão de Vasconcelos, História, Editorial do Ministério da Educação, Algueirão, 1986, Vol.1. pp-46-47 (10) Foral de D. Teresa (1125), citado por Miguel Roque dos Reys Lemos, Anais Municipais de Ponte de Lima, C.M.P.L., 1977, pg.27 (11) Fernandes, A. de Almeida, Ponte de Lima na Alta Idade Média, Separata do Arquivo do Alto Minho, Viana do Castelo, 1960, pg. 125
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